A
aguardente de cana é a bebida mais popular do Brasil. Obtida
a partir da destilação do caldo de cana fermentado,
é uma bebida que apresenta um teor alcoólico entre
38º e 54º GL.
A cachaça, apesar de ser conhecida como sinônimo de
aguardente, se distingue do aguardente de cana por ser resultante
da distilação do mel produzido pela fermentação
alcóolica.
Apesar desta distinção técnica, não
há uma diferenciação clara entre os dois tipos
de bebida, na medida em que ambas são provenientes do chamado
vinho de cana que é o caldo de cana fermentado.
Técnica à parte, é conhecida por diversos outros
nomes particulares em cada região do Brasil : abrideira,
água que passarinho não bebe, amarelinha, arrebenta
peito, caninha, cobertor de pobre, cura tudo, danada, esquenta corpo,
maria branca, mata paixão, perigosa, quebra goela, suor de
alambique, teimosa, entre tantos outros.
Sua história no Brasil, remonta aos primórdios do
século XV quando os portugueses que aqui se estabeleceram,
implantaram os primeiros núcleos de povoamento e trouxeram
a nossa matéria prima, a cana, objetivando a produção
de açúcar.
A origem da cachaça está na garapa, um sub-produto
da produção de açúcar que se obtém
a partir da espuma que se forma na caldeira em que se purifica o
caldo de cana e que era colocada ao relento em cochos de madeira
para alimentar os animais.
Como fermenta com relativa facilidade, um dia alguém experimentou
essa garapa fermentada e notou que era melhor do que o cauim, uma
bebida que os índios produziam a partir da fermentação
do milho ou mandioca.
Essa garapa fermentada tornou-se conhecida por cagaça e passou
a ser fornecida aos escravos para que pudessem suportar melhor a
pesada carga de trabalho nos canaviais.
Logo, porém, tiveram a idéia de destilar a cagaça,
nascendo assim a cachaça ou "vinho" da cana-de-açúcar,
cujos registros apontam a descoberta feita por acaso entre 1532
e 1548, na Capitania de São Vicente.
As primeiras destilarias de cachaça surgiram nos séculos
XVI e XVII com o nome de "casas de cozer méis",
que se multiplicaram rapidamente, pela facilidade de já existirem
engenhos para produção de açúcar e rapadura.
A novidade foi tão apreciada que se tornou moeda corrente
entre os escravos.
A cachaça era uma ameaça aos interesses portugueses
que preferiam importar a bebida Bagaceira. Quando a corte percebeu
que o consumo da bagaceira diminuia e a cachaça aumentava,
saindo das senzalas, se introduzindo não só na mesa
do senhor do engenho, como também nas casas portuguesas,
em 1635 tentaram proibir seu consumo e em 1339 parar a sua fabricação.
Não obtendo êxito, em 1756 o rei de Portugal taxou
a nova bebida.
Por volta de 1819, a aguardente do Brasil já era considerado
um dos principais produtos da economia brasileira e dos que mais
contribuíam com impostos, beneficiando principalmente Portugal.
Apesar de todas as tentativas de reduzir seu consumo, a cachaça
se tornava uma bebida cada vez mais apreciada, servindo também
para abrandar o frio, sobretudo nas baixas temperaturas como as
da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, onde uma grande população
se aglomerava em busca de ouro.
A aguardente brasileira foi assim, um símbolo de resistência
à dominação portuguesa e esteve presente na
mesa dos Inconfidentes. Logo melhoram as técnicas de produção.
A cachaça era exaltada por todos como uma ótima bebida
e consumida até em banquetes palacianos.
Tornou-se a bebida dos brasileiros que, pôr amor à
pátria, recusavam o vinho, especialmente os que vinham de
Portugal e faziam questão de brindar com cachaça.
Misturada ao gengibre e outros ingredientes, era apreciada também
nas festas religiosas portuguesas com o nome de Quentão.
Com o passar do tempo a produção da cachaça
foi aumentando e sua qualidade sendo aprimorada, passando a ser
produzida em alambique de barro, posteriormente de cobre, sob a
forma e nome de aguardente.
Quando iniciou a economia cafeeira, a implantação
da república e a abolição da escravatura, a
nossa cachaça passou a ser vítima de um preconceito
irracional.
Em 1922 no entanto, com a Semana da Arte Moderna, a cachaça
ganhou novamente o reconhecimento que merecia. Outras invenções
genuinamente brasileiras, como o samba e a feijoada fizeram parte
do resgate do brasileirismo.
A cachaça ainda hoje enfrenta algum preconceito, mas hoje
bem menos do que antes. Atualmente, várias destilarias, em
todo o país, produzem cachaças de excelente qualidade.
Hoje em dia quase toda a produção da cachaça
se faz em destilarias independentes dos antigos engenhos e das atuais
usinas de fabrico de açúcar.
Incontáveis são os alambiques de pequeno porte, espalhados
pôr todo território.
São centenas, talvez milhares de marcas. Minas, Ceará
e Pernambuco, possuem juntos mais de mil marcas. Muitas com controle
de qualidade e embalagens dignas do melhor uísque.
Tal empenho dos fabricantes, conquistou o público feminino,
abriu o comércio internacional e a nossa cachaça ganhou
o mundo, ocupando um dos primeiros lugares em termos de produção
e consumo de bebidas destiladas.
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