Sinais
históricos e econômicos indicam que no século
XV o suprimento de mel estava diminuindo. O mel era a matéria-prima
para a produção da principal bebida alcoólica
da Rússia: O Hidromel. Com a escassez do produto e seu
encarecimento procurou-se outras matérias primas. Então,
em 1836, os russos travaram conhecimento com a aqua vitae trazida
de Kafa, colônia genovesa, na Criméia. Tudo isso
indica que os séculos XIV e XV foram um marco de transição
na produção de bebidas alcoólicas. Fabricava-se
muito o kvás e a cerveja fermentados, a destilação
provavelmente se deu por acaso. Este novo ambiente histórico
propiciou mudanças tanto nas matérias-primas quanto
nas técnicas de produção das bebidas alcoólicas
russas. Todavia, como todas essas evidências são
de natureza indireta, é extremamente importante determinar
se existem evidências diretas de mudanças na tecnologia
de produção.
Origem - Técnicas de Produção nos
séculos XIV e XV
Parece que a destilação ou, mais precisamente, os
primeiros passos em sua direção, originaram-se no
final do século XII e início do século XIII.
Mas, desde o início da invasão tártaro-mongólica,
por volta de 1230, que tumultuou toda a vida política e
econômica da Rússia, essa transição
para a destilação foi interrompida e a fermentação
induzida do kvás permaneceu inalterada por mais dois séculos.
É possível que a prática de ferver a mistura
tenha começado antes do século XIII, mas somente
muitas décadas depois, provavelmente no processo de aquecer
a mistura de farinha maltada, ocorreu a destilação
acidental do álcool.
Técnica de Produção antes da vodka
A cerveja e o hidromel eram assentados da seguinte forma: o mosto
de cerveja fermentada ou a solução de mel eram despejados
em potes, e estes, colocados no forno e cobertos com outros potes,
para esquentar o mosto. Ao mesmo tempo, a fim de evitar a perda
de mosto e prevenir o derramamento do líquido quente, uma
tina de madeira era colocada embaixo. É possível
que, permanecendo um longo período no forno, onde a temperatura
era uniforme, e fermentação fosse acompanhada pela
destilação espontânea, cujos produtos se condensavam
e pingavam na tina. Se o mosto de cerveja fosse substituído
por produtos mais grosseiros
- farinha de aveia, cevada e centeio - e se essa mistura fosse
assentada, seria obtido o álcool de cereal. É verdade
que este seria muito fraco, mas poderia inspirar a idéia
de aperfeiçoar a tecnologia e transformar o processo numa
destilação regular.
A vodka - séc. XIV ao XIX - O surgimento da destilação
No começo do século XVI, por volta de 1505 ou 1510,
a destilação do álcool na Rússia já
se encontrava relativamente desenvolvida. Desde os tempos mais
remotos a manufatura do vinho, do hidromel e da cerveja foi de
natureza doméstica e comunal, intimamente ligada à
religião e a rituais que remontavam ao culto pagão
ancestral, associados à crença da vida após
a morte. Por sua antigüidade e da forma que eram usadas com
assuntos sagrados e transcendentais e usada para objetivos festivos
e religioso-políticos, essas bebidas não são
encaradas como embriagantes, mas como sagradas. Também
eram usadas em cerimônias funerais, celebrações
anuais assinalando eventos como a semeadura e a colheita e a comemoração
de vitórias militares.
A destilação do álcool foi um dos primeiros
processos tecnológicos descobertos e aperfeiçoados
sob a sociedade feudal e que vieram a adquirir ampla importância
para a sociedade e o Estado. Surgiu numa base social marcada pela
transição do feudalismo patriarcal para a economia
monetária e serviu para abrir caminho a uma nova época
econômica. Por essa razão o Estado monárquico,
agindo de modo extremamente ciumento e desconfiado, declarou imediatamente
que a destilação do álcool era propriedade
sua, monopólio seu.
A fabricação do vinho, da cerveja e do hidromel
sempre permaneceu livre de impostos. Essas bebidas estavam sujeitas
somente a tarifas aduaneiras, quando atravessavam fronteiras,
e a uma taxa relativamente baixa de frete, da mesma forma que
outros bens. Mas as bebidas destiladas passaram a receber uma
taxa especial de imediato, praticamente no dia seguinte ao surgimento
da destilação.
A emergência da vodka fez com que o Estado reservasse para
si os direitos de produzi-la e vendê-la, e que veio a se
tornar praticamente o equivalente do dinheiro, precisava refletir
o alto prestígio do Estado. Na Idade Média, qualquer
mudança na qualidade da vodka era encarada como um crime
contra o estado, tão grave como a falsificação.
De todos os estados, Moscou era o que tinha mais potencial para
ser base de um novo comércio produtivo e qualquer tipo
de inovação técnica, inclusive a produção
de bebidas destiladas. Moscou foi o primeiro estado centralizado
na Rússia; foi lá, então, que as pré-condições
políticas, econômicas, sociais e tecnológicas
para a produção da vodka se concentraram. Vários
historiadores russos estudiosos das instituições
legais do Estado de Moscou ressaltaram que um produto como o álcool
de cereal, exigindo a introdução de um monopólio
de Estado, poderia surgir apenas sob as condições
de um Estado centralizado e autocrático. Já no século
XVII e por todo o século XVIII e XIX, a expressão
"vodka de Moscou" tinha se implantado firmemente na
fala popular. No século XX, tornou-se o nome oficial de
uma marca de vodka, e assim, não possui mais a mesma conotação
de antigamente.
Uma série de indícios diversos e indiretos nos levam,
passo a passo, à conclusão de que a destilação
do álcool surgiu no Estado de Moscou e, provavelmente,
num dos mosteiros da cidade de Moscou, talvez no de Tchúdov,
no período entre 1440 e 1478. Os monges dos mosteiros privilegiados
de Moscou eram pessoas mais cultas e tecnicamente dotadas no Estado.
Só nas condições existentes em um mosteiro
o equipamento necessário poderia ser obtido e testado.
Só a hierarquia monástica e a Igreja em seu sentido
mais amplo poderiam ter sancionado tal produção.
O ano de 1478 pode ser considerado a data limite, quando a produção
de destilados já ocorria há algum tempo e a experiência
dessa indústria levou o Estado a introduzir o monopólio
sobre a produção e venda da vodka. A produção
de vodka era um fato estabelecido e alcançara um nível
mais ou menos estável. A vodka, também era conhecida
como "vinho ardente".
No século XVIII, a Igreja sofreu um golpe quando o direito
de efetuar a destilação foi concedido exclusivamente
à nobreza; os aparelhos de cobre para a destilação,
como tubos e barris, foram retirados dos mosteiros a pretexto
de uso com propósitos militares. Dessa forma, "a vodka
foi retirada da Igreja", o que resultou num dos traços
característicos do desenvolvimento histórico russo.
Esse acontecimento fixou a atitude geral negativa da Igreja em
relação ao "veneno do diabo" e introduziu
uma clara divisão
de influências entre a Igreja e o Estado; a primeira só
era autorizada a cuidar das almas das pessoas, enquanto o segundo
assumia o direito de influir em seus corpos.