Surgimento
e desenvolvimento do termo "vodka" séc XVI ao
XX
Na fala popular, a palavra "vodka" surgiu relativamente
cedo e foi empregada por vários séculos como gíria.
Nessa condição, alcançou sua maior disseminação
principalmente durante o reinado de Catarina, a Grande.
Ao final da década de 60 e início da década
de 70 do século XVIII, o nome "vodka" desbancou
"vinho de cereal" como padrão usado na Rússia.
A palavra estava firmemente implantada apenas em Moscou e arredores,
enquanto em várias outras regiões continuou quase
desconhecida até o final do século XIX, estando
longe de ser universal.
De 1880 ao final do século, costumava-se descrever como
vodka as bebidas destiladas cujo teor alcoólico variasse
de 40 a 65%, enquanto bebidas contendo de 80 a 96% começaram
a ser chamadas de destilados. Então, em 1902, decretou-se
uma lei através da qual a vodka com o teor alcoólico
ideal de 40% poderia ser chamada de verdadeira vodka, vodka de
Moscou.
Desde cerca de 1865 até a reintrodução do
monopólio, entre 1894 e 1896, a fórmula da vodka
empregada habitualmente era bastante simples - uma mistura de
50% de álcool com 50% de água. Essa produção
sucedeu-se à anterior de 1 para 2 e produziu uma bebida
contendo de 41 a 42% de álcool por peso. Essa cifra resultava
de um fenômeno curioso: quando o álcool é
misturado à água, o volume total de líquido
é reduzido. Isso significa que, se pegarmos 1 litro de
água pura e o misturarmos a 1 litro de 96% de destilado,
não obtemos 2 litros de líquido, mas consideravelmente
menos. Quanto mais forte o destilado, maior a diminuição.
Assim sendo, um litro de vodka a 40º deve pesar exatamente
953g. Se pesar 951g, o teor alcoólico da mistura água/destilado
já será de 41º, mas se pesar 953g será
de 39º. Este fenômeno foi observado por Mendeléiev.
A partir dessa época (1894-6), a vodka russa (vodka de
Moscou) passou a ser definida como um produto que consistia numa
bebida à base de cereal, triplamente destilada e depois
diluída com água numa concentração
de 40% por peso. A fórmula de Mendeléiev foi adotada
em 1894 pelo governo russo como padrão para a vodka nacional.
A vodka em sua forma moderna deve muito à descoberta de
Mendeléiev.
A vodka produzida nos lares aristocráticos dos magnatas
russos era de padrão tão elevado que superava em
muito os famosos conhaques franceses. Por essa razão, Catarina
II não hesitou em presentear com vodka monarcas ilustres
como Frederico, o Grande, e Gustavo III da Suécia, além
de governantes italianos e alemães. Presenteou também
Voltaire, um grande conhecedor de vinhos franceses. Quanto às
dúvidas expressas por um cortesão sobre se era apropriado
dar vodka a um filósofo, especialmente com uma língua
ferina e incontida como a de Voltaire, Catarina teria replicado,
em tom condescendente:
" Depois disso ele vai engolir a língua de surpresa
e prazer, ou de inveja da Rússia."
Em suma, a alta qualidade da vodka "doméstica"
produzida nos lares da nobreza fez com que ela alcançasse
prestígio internacional já no século XVIII.
Tornou-se a bebida da nata da sociedade, um produto de extraordinária
reputação devido a sua pureza e aos benefícios
médicos de seu consumo.
O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, trouxe tipos
baratos de vodka ucraniana de batata e beterraba, principalmente
das províncias de Kiev e Poltava, o que levava à
embriaguez mais descontrolada. A produção de vodka
pura, de alta qualidade, não era lucrativa para os capitalistas,
que se voltavam exclusivamente à produção
de vodka para a venda. Na segunda metade do século XIX,
a vodka de centeio russa começou a ser sistematicamente
exportada para a Alemanha, fazendo com que o mercado de massa
dentro da Rússia fosse dominado com mais força ainda
pelas vodkas de batata.
O uso civilizado da vodka também conflitava com os objetivos
políticos de Pedro I, que transformou a vodka e as bebidas
alcoólicas em geral em instrumentos políticos de
seu governo absolutista. Sob Pedro, a vodka se tornou uma arma
para policiar a população, minar a moralidade social,
comprometer a integridade de oponentes políticos e quebrar
a unidade da oposição. Por essa razão Pedro
travou uma luta contra os Velhos crentes na Igreja Ortodoxa, que
adotaram a sobriedade como princípio, e introduziu o "castigo
da xícara".
A cultura da embriaguez foi descrito em 1788 pelo médico
francês Le Clerc, que afirmou, em seu livro sobre a Rússia,
que beber grandes quantidades de vodka sem comer era forma normal
e até correta de beber a vodka russa, sendo tal opinião
adotada pelos russos.
Há mais de duzentos anos, esta lenda é difundida
por alguns empresários, que observam com seu próprios
olhos os parceiros comerciais russos se comportando desse modo.
É uma característica especificamente russa, representando
apenas um comportamento vulgar. Um verdadeiro símbolo do
que havia de mais grosseiro na Rússia, eram os funcionários
e comerciantes demonstrando suas origens russas se encharcando
de vodka. Como ressaltou Mikhaíl Saltikov-Chtchedrin, aqueles
que cultivavam esse comportamento grotesco, não eram representantes
da cultura russa, mas apenas do "capitalismo selvagem"
russo.